Historicamente, o Transtorno do Espectro Autista (TEA) tem sido diagnosticado com muito mais frequência em meninos do que em meninas. Durante décadas, a proporção aceita era de cerca de quatro meninos para cada menina diagnosticada. No entanto, pesquisas recentes e uma compreensão mais profunda da neurodiversidade têm revelado que essa disparidade não se deve necessariamente a uma menor prevalência do autismo no sexo feminino, mas sim a uma falha sistemática em reconhecer como o autismo se manifesta em meninas e mulheres. O diagnóstico tardio, ou a completa falta dele, tem consequências profundas para a saúde mental e o bem-estar dessas meninas.
Uma das principais razões para o subdiagnóstico em meninas é o fenômeno conhecido como “mascaramento” ou masking. Meninas autistas frequentemente desenvolvem, desde muito cedo, habilidades sofisticadas para camuflar seus traços autistas e imitar o comportamento social de seus pares neurotípicos. Elas observam atentamente como as outras meninas interagem, copiam expressões faciais, gestos e até mesmo interesses, em um esforço exaustivo para se encaixar e evitar o isolamento social. Esse mascaramento pode ser tão eficaz que pais, professores e até mesmo profissionais de saúde não percebem as dificuldades subjacentes que a menina está enfrentando.
Além do mascaramento, os critérios diagnósticos tradicionais para o autismo foram amplamente baseados em observações de meninos. Consequentemente, os sinais que são mais comuns em meninas podem não se alinhar perfeitamente com esses critérios. Por exemplo, enquanto os interesses restritos e intensos em meninos autistas podem envolver tópicos como trens ou dinossauros (que são facilmente identificados como atípicos), as meninas autistas podem desenvolver interesses intensos em temas mais socialmente aceitos para a sua idade, como animais, celebridades, literatura ou moda. A intensidade do interesse é a mesma, mas o tema não levanta suspeitas.
As meninas autistas também tendem a apresentar menos comportamentos externalizantes, como agressividade ou hiperatividade, que frequentemente chamam a atenção de pais e professores. Em vez disso, elas são mais propensas a internalizar suas dificuldades, o que pode se manifestar como ansiedade severa, depressão, transtornos alimentares ou mutismo seletivo. Muitas vezes, essas condições secundárias são diagnosticadas e tratadas, enquanto a causa raiz — o autismo não reconhecido — permanece invisível. Essa internalização constante e o esforço contínuo para mascarar seus traços levam a um estado de exaustão crônica, conhecido como burnout autista.
O impacto do diagnóstico tardio é significativo. Crescer sentindo-se diferente, sem entender o porquê, e lutando constantemente para se adequar a um mundo que parece não fazer sentido, gera um profundo sentimento de inadequação e baixa autoestima. Muitas mulheres diagnosticadas na idade adulta relatam uma vida inteira de confusão e sofrimento emocional. Quando o diagnóstico finalmente chega, ele frequentemente traz um alívio imenso. Ele oferece uma lente através da qual elas podem reavaliar suas experiências passadas, perdoar a si mesmas por suas dificuldades e começar a construir uma identidade autêntica.
Para mudar essa realidade, é fundamental que haja uma maior conscientização e treinamento para profissionais de saúde, educadores e pais sobre as apresentações sutis do autismo em meninas. É preciso olhar além dos estereótipos e prestar atenção aos sinais de exaustão social, ansiedade e dificuldades de regulação emocional. A avaliação diagnóstica deve ser sensível às nuances de gênero e considerar o histórico completo da paciente, incluindo os esforços de mascaramento.
O reconhecimento precoce e o apoio adequado são essenciais para que as meninas autistas possam se desenvolver de forma saudável. Isso inclui a criação de ambientes onde elas não sintam a necessidade de mascarar quem são, o acesso a terapias que respeitem sua neurodivergência e o contato com comunidades de apoio, como as oferecidas pela Atipirede. Ao validar suas experiências e fornecer as ferramentas necessárias, podemos garantir que essas meninas cresçam com dignidade, autonomia e a certeza de que seu modo de ser no mundo é válido e valioso.